Helloise Mota
Ciranda: Product Discovery
Do problema à decisão de construir
Resumo
Clubes de hobby recorrentes (leitura, artesanato, atividades físicas leves) movimentam milhares de pessoas no Brasil e são organizados quase inteiramente à mão, sobre uma pilha improvisada de ferramentas gratuitas. Neste estudo, investiguei se havia espaço para um produto que resolvesse essa gestão e, principalmente, se alguém pagaria por ele.
O Discovery apontou que a dor de fato existia: recai sobre uma única pessoa, o organizador, e vira prejuízo quando compra material para quem confirmou presença e não apareceu.
Metodologia: Continuous Discovery (Teresa Torres); 4 Grandes Riscos (Marty Cagan); MoSCoW; SUS
Entregáveis: Benchmark; Questionário; Jornadas As-is e To-be; Árvore de oportunidades; Go/No-Go; MoSCoW + roadmap; Protótipo; Fake door; Testes de usabilidade.
Problema
Clubes de hobby operam sobre cinco ferramentas que não conversam entre si: Instagram (divulgação), WhatsApp (conversa), Forms e DM (inscrição), Pix na chave pessoal (cobrança) e Canva e Docs (conteúdo). Cada uma resolve bem a própria função, porém o custo aparece nas desconexões: do comentário do Instagram para a planilha, da planilha para o Pix, do Pix para a lista de presença, gerando carga cognitiva e em algumas situações até mesmo custo financeiro para o organizador.
Hipótese: acredito que organizadores de clubes de hobby perdem tempo, dinheiro e capacidade de crescer porque gerenciam inscrição, cobrança e conteúdo manualmente e de forma dispersa. Se eu centralizar a gestão ativa (sem substituir o chat que já funciona), então verei adoção, redução do esforço administrativo e disposição comprovada para pagar.

Decomposição da hipótese conforme os 4 riscos de Cagan.
Descoberta
Desk research e Benchmark
Fontes: páginas oficiais de pricing dos concorrentes, matérias jornalísticas sobre coletivos de hobby, observação de comportamento dentro de grupos de whatsapp de clubes correspondentes.
Principais achados:
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Ticketing converge para ~10% + processamento, com mínimo fixo de R$ 2,50–3,99: Em um encontro de R$ 25 o mínimo vira ~16% do ticket;
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Agregadores de link já resolvem "juntar tudo" de graça;
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SaaS de gestão de clube não publicam preços e miram em clubes com sede física.
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Impacto consolidado: o benchmark redefiniu a tese central do produto apontando que o valor não está em consolidar, mas sim em gerir, uma vez que consolidar já é gratuito no mercado.
Pesquisa com usuários
Recrutramento: rede orgânica de leitores e organizadores da cena de clubes de leitura, com ramificações para coletivos de artesanato, corrida e hobbies rotativos, além de cafés, bibliotecas e livrarias que hospedam encontros. Foram recrutrados membros de três perfis de clubes (hobby rotativo, hobby único com prioridade em leitura, clubes institucionais). Devido ao tempo escasso, a amostra foi pequena, portanto qualitativa, buscando profundidade e direção em vez de significância estatística
Principais achados:
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Maioria gasta 5h ou mais por encontro em tarefas administrativas;
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Controlar vagas é a tarefa mais trabalhosa;
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Se comunicar com o grupo é a tarefa menos trabalhosa;
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Conteúdo fragmentado entre Canva, Docs, mensagens fixadas e DMs de Instagram;
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39% dos membros descobrem tarde demais sobre o encontro e muitos não sabem se ainda há vaga;
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18% já desistiram por fricção de inscrição ou pagamento;
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A maioria dos organizadores já pagaram por ferramenta de design;
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A maioria não sabe quantos membros estão de fato ativos.
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Impacto consolidado: inicialmente, minha hipótese considerava incluir chat próprio na solução. Porém o Discovery mostrou que se comunicar com o grupo é a tarefa menos trabalhosa, e as respostas abertas deixaram claro que mudar de plataforma não é uma opção "todo mundo está no WhatsApp, é praticamente um uso automático". A vantagem é que a construção de um chat é uma funcionalidade cara de construir e era a mais provável de fracassar.
Definição
Jornada AS-IS
Considerando os impactos consolidados, mapeei o ciclo de um encontro em dez fases, com ferramentas, tempo, dores e curva emocional. Cerca de 80% do esforço acontece entre divulgar e receber as pessoas, que é exatamente onde não existe uma ferramenta dedicada. Cada item do MVP precisou responder a pelo menos um dos pontos de ruptura, servindo também como critério objetivo de priorização.
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Árvore de Oportunidades e Faz/Não Faz

MVP, modelos de negócio e priorização
Must: contagem automática de vagas; hub de conteúdo; página pública com link único; web sem instalação; inscrição sem cadastro pesado; limite do gratuito; anúncio configurável.
Should: cobrança com recibo; lembrete e calendário; lista de espera; exportação; diretório de parceiros. Could: painel de membro ativo; certificado; check-in por QR code.
Won't (guardado, não descartado): app instalável com notificação push; chat nativo (poderá ser útil para clubes grandes, uma vez que Whatsapp não tem número ilimitado de membros); catálogo de clubes (voltará quando houver densidade mínima por cidade).
Cogitei limitar o gratuito revelando só parte de quem está inscrito, no modelo de "visitas ao perfil" utilizado pelo LinkedIn. Desisti da ideia porque essa informação não seria exclusiva da plataforma, uma vez que o organizador já sabe quem está no grupo e possui meios para verificar a confirmação de quem pretende comparecer. Portanto, o limite escolhido foi volume em vez de identidade.

Protótipo, Jornada To-be e Validação
O protótipo foi gerado via Claude Design e disponibilizado para testes de usabilidade para 5 organizadores e 5 membros, recrutados na mesma rede orgânica do questionário. Apliquei a escala SUS e a reinterpretei pelas heurísticas de Nielsen (aprendizagem, eficiência, memorização, minimização de erros, satisfação), para transformar uma nota única em diagnóstico acionável. ​Resultado: SUS 83 (faixa "Ótimo").


Decisões

Próximos passos
O Discovery cobriu três dos quatro riscos de Cagan. Mas Valor e Viabilidade de Negócio foram medidos, até aqui, por declaração. O fake door é o primeiro momento em que se mede comportamento diante de uma oferta real, uma vez que clicar em "Assinar" tem custo (tempo, dados, exposição), e é isso que transforma opinião em evidência.
Divulgação pela rede orgânica: as mesmas comunidades que responderam ao questionário e participaram dos testes recebem o link, agora pelos próprios organizadores. Complementado por grupos de nicho, cartaz com QR code em livrarias e bibliotecas parceiras, e verba mínima de impulsionamento segmentado apenas para calibrar volume. Janela de três semanas, com origem de tráfego identificada por canal.
Risco de valor: a taxa de clique em "Assinar" mede se a dor gera ação, não apenas resposta em questionário. Viabilidade: a distribuição de cliques por plano mede demanda relativa entre modelos de monetização, algo que o questionário pode capturar com viés.


Case conceitual desenvolvido como exercício autoral de Product Discovery, aplicando Continuous Discovery (Torres) e os 4 Grandes Riscos (Cagan) em um contexto real de mercado.